29.6.07

Novidade

Tem um amigo meu escrevendo aqui.

11.1.07

Full circle

Adeus

...

18.11.06

Realidade Virtual?

Sabe, às vezes a gente adota certos padrões de comportamento que, se repetidos exaustivamente, passam a fazer parte de nossas vidas sem que haja maiores questionamentos. Mas vira-e-mexe eu começo a especular sobre o sentido de todas as coisas no mundo, e recentemente me veio à cabeça uns pensamentos sobre a internet, a realidade virtual e a interatividade.

Pois bem, vamos começar pelo começo. No final da década de 90 a tal internet apareceu em minha vida. Em meados da década de 90 minha amada genitora me colocou num curso de computação pra crianças/adolescentes. Tipo, eu nem era tão adolescente assim, eu já me esfregava pelado em meninas e tal. Enfim. Minha mãe achou que o seu filho era pé-vermelho demais, e que deveria entender algo sobre computadores. Pois ela me matriculou nessa escola de informática, a Futurekids. E lá eu aprendi a ligar o micro, desenhar no paint e acessar uma tal de BBS chamada Mandic. Inicialmente eu nem dava muita bola, tinha amigos e vida social suficientes, não entendia o porquê de me comunicar com estranhos de forma remota.

Os anos se passaram, eu ficava longe do computador. Estudava pro vestibular, viajava pro interior, jogava bola até de madrugada com os amigos do prédio, não havia motivo pra ligar o 386, a não ser pra imprimir algum trabalho pra escola (numa impressora matricial de folha contínua).

Meu primeiro contato com a internet foi mesmo na faculdade. Na verdade foi pela net que descobri que havia passado no meu primeiro vestibular. Os resultados eram atualizados quase que a cada minuto no site da faculdade, então eu tive que dar um jeito de entrar nesse monstro virtual. Peguei um cabo que ligava um tal de modem à linha telefônica, liguei pra algum provedor que me instruiu como ter acesso, e pronto, eu estava online. Eu me conectava à rede e ficava uns 2 minutos esperando todas as fotos do uol carregarem, era uma eternidade.

Aí em determinado momento eu tive que criar uma conta de e-mail. Por causa da faculdade mesmo. Ok, e-mail criado. Mas eu nunca gostei de escrever e-mails, a não ser quando estou tentando conquistar alguém de forma barata, e sem saco pra falar ao telefone, que odeio. Bem. Eu lembro que aos poucos eu comecei a descobrir novos horizontes do mundo virtual. Salas de bate-papo, por exemplo. Eu fiquei hipnotizado da primeira vez que entrei numa sala de bate-papo adulto do uol. A sala se chamava "imagens eróticas". Pronto. Era só entrar na sala, apertar o quadradinho que possibilitava rolagem automática da tela, e meu nome era felicidade. Seios, vaginas, bumbuns, bocas e peles de todos os tamanhos, cores, etnias e tal. Um mundo novo batia à minha porta: o da putaria virtual. Pra quem havia passado a vida toda tendo como referência as revistas Playboy e as garotas tímidas que insistiam em transar à meia-luz, eu havia encontrado o eldorado.

Mais pra frente veio o ICQ, que tinha um barulhinho irritante e viciante. O-oh. Pouco a pouco os amigos aderiram à moda, e à noite nos encontrávamos online. A possibilidade de me comunicar instantaneamente com todos era fascinante. Milhares de janelinhas piscando, amigos indicando amigas pra bater papo, sistemas de busca que faziam delivery de mulheres virtuais pro seu computador, amizades virtuais.

E aí a vida começou a mudar pra valer. Adeus, noites de futebol com os amigos. Adeus, dormir cedo depois de folhear um livro ou assistir a Tela Quente. Havia um mundo novo, de possibilidades infinitas, eu eu tinha que descobrí-lo e dominá-lo. O meu caminho das Índias.

Depois disso vieram os primeiros encontros virtuais, aquele friozinho na barriga, enquanto esperava pela menina na praça de alimentação do shopping, com toda minha timidez e 5 borrifadas do meu melhor perfume. Vieram depois disso alguns desapontamentos, algumas paixões, algumas transas. Era o desbravar da mata (virgem?), a subida da serra com mulas, a busca pelo ouro no oeste.

Até que um dia sem querer eu entrei num tal de blog. Era praticamente um diarinho muito divertido de uma menina mais velha que eu. "Pôrra, quero ter um desses". Criei o "Destino", minha primeira aventura pelo mundo da iliteratura. E aos poucos fui expandindo minha lista de leituras, até que cheguei ao blog de quem é hoje um puta amigo, o Renato. Praticamente um irmão que conheci online. Nesse tempo eu já escrevia no saudoso e constantemente ressucitado Betterman. E nesse círculo fiz mais amizades, conheci gente legal pra caramba, gente que me mostrou idéias, filmes, festas divertidíssimas dos anos 80 e músicas que contribuíram com um valor inestimável pra minha vida.

E as reviravoltas tecnológicas continuavam. Em determinado momento alguém percebeu que o ser humano é preguiçoso, e que teria de haver um meio mais fácil pro homem se mostrar ao mundo. Vieram então os fotologs, uma praga que ajuda pessoas carentes e com baixa auto-estima a sorrir por meio de comentários e adesões anônimas, o famoso "me add e me comenta vlw flw". Nesse ritmo foi criado ainda o miguchês e o movimento emo, assim como a popularização do indie, que deixou de ser indie.

Mais ou menos nessa toada o ICQ foi sepultado e trocado pelo MSN, que não possui um sistema de busca e empatou a foda de metade dos nerds online. Sad but true. Até que alguém pensou em criar algo que pudesse suprir essa lacuna: os sites de relacionamento.

E então veio o orkut, também conhecido como "rascunho do inferno". Todas as pessoas passaram a trocar informações confidenciais sobre suas vidas. Pessoas reencontraram amigos de infância, de quem não tinham notícias havia anos, e perceberam que a maioria deles tinha se tornado idiotas e superficiais. Eu pude perceber como o ser humano tem mau gosto, como as pessoas em geral são ignorantes, fofoqueiras e curiosas. Quisera eu permanecer com aquela ilusão de ter amigos bacanas e interessantes perdidos pelo mundo, com quem eu não tinha mais contato por escolhas do destino. Não. De uma hora pra outra, todas as pessoas que você conhecia estavam agrupadas numa página de internet. Ex-namoradas, parentes, colegas de trabalho, vizinhos, todo mundo sabendo que você tem um humor X, uma visão política Y e quatro piercings no mamilo esquerdo. Será que só eu nesse planeta acha que é uma estupidez sem tamanho expôr sua vida pessoal e sua intimidade ao mundo anônimo? Acho que não. Ainda bem. Logo no começo do orkut eu já apagava meus scraps, tinha quem me chamasse de doido. Enfim. Saí dessa merda. Sinto falta de algumas coisas, confesso, mas não estou mais disposto a pagar o preço. Minha privacidade é sagrada. No orkut eu me sentia como se estivesse cagando no banheiro do térreo de um prédio que dava de frente pra Avenida Paulista. Com a porta aberta. Na hora do almoço. Atualmente estou no myspace, que resguarda muito mais minha intimidade. Mas lá não tenho quase nenhum amigo do Brasil, ou seja. Enfim. Orkut fede.

Outro fenômeno da internet que ganha destaque é o glorioso Google, nem preciso linkar. Se algum leitor daqui vive em outro planeta e não sabe o que é o Google, faça o seguinte: entre no google e procure por "google", com ou sem aspas. Não tem erro. Ele é a maior fonte de trabalhos universitários do mundo, assim como o paraíso dos stalkers profissionais. Se você tem menos de 40 anos e não está no google, eu não confio em você.

Youtube. Pronto. Agora fudeu. Ninguém mais tem coragem de correr pelado pelas ruas. Ninguém mais tem as manhas de ir numa festa a fantasia vestido de travesti. Culpa do youtube. O mundo está de olho em você. Não saia da linha, ou está fodido. E por favor: não acredite que seu namorado vai apagar as fotos/vídeos depois. Ele não vai, e um dia o namoro vai terminar. Ou seja...evite a fama de Cicarelli ou Paris Hilton, principalmente se sua profissão exigir o mínimo de respeito ou se você tiver família em cidade pequena do interior.

Enfim. Há muitas outras coisas pra comentar. Lan houses, hackers, pirataria (ou compartilhamento de arquivos, escolha o nome que você prefere), viciados em counter strike, pedófilos, freaks, bug do milênio, tem todo e qualquer tipo de lixo na internet. Vírus. Putz, como o homem é estúpido. Spam. Affe. Eu falei apenas sobre o que fez ou faz parte da minha vida. Sobre esses outros lixos eu nem comento.

E meu ponto é o seguinte: eu sempre me perguntava que rumos a internet iria tomar. E agora eu sei a resposta: a vida real!!!!

Há uma estupidez enorme nisso, mas pense bem: você sai da vida real pra tentar se reaproximar dela com o máximo de fidelidade possível, mas isto é impossível. Criou-se vida dentro do computador, carinhas amarelas que sorriem, choram e vomitam, abraços, power-points de auto-ajuda. E tudo pra quê? Pra interação entre seres humanos. Hummm. Interessante. Mas antes da internet os homens não interagiam? Sim, claro. De diversas formas. Falando, praticando esportes, dançando, transando, enchendo a cara em boteco de mesa de lata, sorrindo, chorando, matando, morrendo, nascendo. E veio a internet. Algo novo. Que evoluiu rapidamente no sentido de: fazer as pessoas interagirem!!! Claro, há benefícios: eu posso ouvir a voz de vocês no Brasil sem pagar telefone e tal. Se bem que escrever cartas que atravessam o mundo de navio é bem mais romântico.

Voltando: eu acho que todas essas criações da internet foram tentativas de fazer o ser humano viver de uma forma pseudo-humana, sem os "perigos" da vida real, entendem? Há essa distância que facilita, que acaba com a timidez, com a rejeição, com o peso do olho no olho. É uma fuga mesmo. Mas tem como objetivo principal fazer o homem sentir. Sentimentos. Não é esse nosso combustível pra vida?

Eu não tenho nenhuma conclusão sobre esse assunto, na verdade tenho mais dúvidas do que tinha antes. Mas eu vejo o mundo inteiro se comunicando por vídeos, fazendo agora blogs no youtube, e o povo comentando também por vídeos, e eu vejo a tecnologia envolvida nisso e me espanto, tudo como uma tentativa de se aproximar do contato real que sempre existiu nas ruas, daqui a pouco vai ser possível fazer download de abraços e cafunés, aí eu me lembro daquele povo estranho que entrava na tal de Mandic BBS pra falar com outras pessoas estranhas (nos dois sentidos), e eu penso o seguinte: não tem jeito mesmo, Bon Jovi estava certo, o homem não é uma ilha. E por mais freak, sociopata, tímido, urbano, artificial e distante de tudo e de todos que um ser humano possa ser, ele sempre vai sentir a necessidade de se comunicar e de vivenciar sentimentos com outros seres humanos, nem que pra isso tenha que ficar sentado atrás de uma tela brilhante que queima sua retina. Pois é, a solidão é o mal do século e Renato Russo acertou:

"Digam o que disserem,
o mal do século é a solidão.
Cada um de nós imerso
em sua própria arrogância
esperando por um pouco de afeição."

E essa nova forma de interagir está mudando o comportamento das pessoas no mundo real. É cada vez mais raro o contato humano nas ruas, o sorriso na hora de comprar o pãozinho, parece que o homem anda sempre desconfiado de algo, agora há duas vidas. Na vida real você existe como um vegetal frio e distante, e seus sentimentos você mostra por meio de caracteres no mundo virtual. No metrô você acha estranho quando alguém puxa papo com você, mas basta algum estranho te mandar um e-mail/comment/scrap/add pra você vomitar sentimentalidades e afeto. Eu acho tudo isso muito estranho. E podre. Estamos criando nossa própria matrix, inventamos personagens que não temos coragem de vivenciar na vida real, nicks, alias, pseudônimos, bogus, fakes. Fakes, é isso que somos, a maioria da geração da internet.

Enfim. Estou ficando louco? Eu prefiro o mundo old school. Mas não gosto de chorar em público. Que belo castelo de areia que arrumamos...


8.11.06

Crime passional...

...é um belo nome pra blog.

Hoje fui de novo: gorro, moletom, jaqueta esportiva, luvas....e claro, minha corda! (de pular corda!!!). Fiz o alongamento direitinho e tal, corri um pouco pra aquecer, estica dali mais um pouco, puxa daqui, e resolvi encara-la. A corda, claro. Quem me conhece sabe que coordenação motora não é meu forte (a não ser na cama ou na pista de dança, locais em que meus movimentos imperam. Ah, na piscina também). Eu estava com receio de tomar uma surra da corda, mesmo sendo ela um ser inanimado e acessível a todas as faixas etárias para compra. Mesmo assim resolvi trata-la com respeito, olhar bem em seus olhos (?) e garantir um mínimo de dignidade. O bom é que o parque em que me exercito é desabitado, apenas alguns transeuntes (?) passam por ali, mas o parque é muito escuro, praticamente eles não me enxergam. Tipo assim: quando eu chego ao parque eu não enxergo nada, mas após 1 ou 2 minutos minha vista se acostuma ao breu (?) e passo a ter visão além do alcance, devo ter algum pedaço de DNA de coruja em meu código genético.

Voltando à corda: eu fiquei com medo de me machucar. A gente sempre pensa no pior. Cogitei tropeçar na corda e bater a cabeça no chão, e aí me lembrei que eu estava sem documentos no parque, então decidi pegar leve, já que não quero ser enterrado como indigente desportista aqui na europa. Mas depois lembrei que esses detetives alemães são muito bons, e provavelmente eles conseguiriam notar que a etiqueta da minha cueca possui os dizeres "indústria brasileira", então teoricamente eles só teriam que levar meu corpo até a embaixada e deixa-lo exposto no saguão central até que um conterrâneo me reconhecesse. É incrível a quantidade de merda que passa pela minha cabeça.

Pois a verdade é que eu sou um natural born rope jumper! Estou orgulhoso de mim! Claro que tenho muito a melhorar, assim como em quase todas as atividades de minha vida, mas é uma questão de tempo. Fiz 1 hora de corda intercalada com corrida, logo logo estarei com o corpinho do Patrick Swayze. Patrick Swayze o caralho, eu esqueci que o projeto se chama European Balboa. Preciso voltar a puxar ferro.

O mais divertido da noite foi o seguinte: em determinado momento eu estava sentado em uma mureta a descansar, quando avistei uma loirinha muito gatinha vindo na direção do parque. Rapidamente me levantei, cansando ainda, e tratei de "mostrar serviço". Eu estava tão profissional neste momento que já era capaz de pular fazendo aos poucos um giro de 360° e corridinhas pra trás. Mas quando me virei pra checar o posicionamento da loirinha, vi que ela havia sumido. Anyway, continuei pulando. Passado mais ou menos um minuto eu vejo a menina dos cabelos dourados se aproximando de mim, e a possibilidade de ser sexualmente violentado por uma alemã de 20 e poucos anos me agradou. Ela foi extremamente educada, pediu-me licença e perguntou qual era o caminho pra estação central de trens. Eu sorri e disse que ficava a menos de 500 metros seguindo a rua X, e que nem valia a pena esperar um ônibus. Aí nessa hora vem aquele pensamento típico de brasileiro: "será que ela realmente só queria uma informação?". Como eu fui muito bem educado pela minha mãezinha e severamente massacrado psicologicamente pelos ensinamentos da nossa sociedade ocidental opressora cristã, fiquei mudo, sorrindo, esperando pra ver se ela falaria mais alguma coisa. Entretanto ela apenas agradeceu, sorriu e tomou seu rumo. Mesmo assim fiquei feliz, e de certa forma a abordagem da loira me deu gás pra mais uns 15 minutos de corda.

Depois eu voltei pra casa, fiz alongamentos de novo, barbeei-me, tomei uma ducha pelando, deliciosa, vesti-me e fui ao marroquino da esquina comer um schawarma.

Na verdade eu andava sem inspiração pra escrever aqui ultimamente, mas hoje recebi um elogio bacana sobre o blog que me reanimou.

E a moral do post é a seguinte: queridos leitores, façam alguma atividade esportiva. Nem que seja correr até a banca de jornal pra comprar cigarros. Eu tô sentindo que o esporte vai mudar minha vida pra sempre.

7.11.06

El Niño

5.11.06

31.10.06

Team Balboa

Ontem à noite decidi mudar os rumos da minha vida. Eu costumo decidir mudar os rumos da minha vida quase que diariamente. Mas a dificuldade reside em mudar de verdade, e não em decidir. Toda noite eu costumo fazer planos pra colocar minha vida nos trilhos, e depois vou dormir. No dia seguinte eu acordo e não me lembro dos planos da noite anterior, ou seja, eu esqueço tudo e continuo à deriva. Como naquele filme "50 First Dates". A única diferença é que a Drew Barrymore não se lembra do seu passado, enquanto eu não me lembro do meu futuro.

Pra melhorar isso eu baixei alguns audiobooks sobre gerenciamento de tempo e organização pessoal. Aprendi que tenho que escrever meus planos, assim eles ficam mentalizados e meu superego me impulsiona a segui-los. Teoricamente tudo funciona, mas eu me esqueço de escrever meus planos. Meu problema não tem nada a ver com falta de memória, eu consigo me lembrar de diálogos de filmes que assisti há anos, assim como me lembro do cheiro da maioria das mulheres que passaram em minha vida. O problema é que sou um vagabundo sem-vergonha, mas estou tentando mudar isso.

Decidi voltar a praticar esportes e elegi Rocky Balboa e Apollo Doutrinador como meus exemplos a serem seguidos. Fui até uma loja de artigos esportivos e comprei uma calça nova pra correr no frio noturno dessa cidade. Bem feia e vagabunda, a mais barata. E comprei uma corda pra pular corda, do jeito que os boxeadores fazem. Pronto. Rocky sempre usou aquele mesmo conjunto cinza de moletom (chamado de "abrigo" no interior) pra ficar em forma, acredito que aquilo nunca foi lavado, era o mesmo desde Rocky I até Rocky V, o que demonstra a fidelidade presente na personalidade do garanhão italiano. Farei exatamente o mesmo, treinarei todos os dias com a mesma roupa de moletom, só espero que ela envelheça logo pra me dar aquele ar de proletário vencedor errante que sua pelas ruas. Rocky era proletário mas era indie, ou seja, quase um working class indie hero, ele costumava correr com um par de all-stars (chamados de chucks aqui na europa). Infelizmente não vou correr com meus schucks vermelhos, deve doer os pés, nesse quesito eu sou um burguês bundão, vou usar meu par de Mizunos com amortecimento de última geração.

Eu nem sei porque estou estou escrevendo isso, acho que é só pra falar que eu vou começar a correr. Na quinta-feira, porque acho que hoje vou pra balada. Então amanhã estarei de ressaca provavelmente. Já até pensei na cena: coloco meu eterno conjunto de moletom fedorento, entro no youtube, assisto àquele meu clipe favorito do Rocky correndo com o Apollo, abro o itunes, coloco "Eye of the tiger", depois aquela do Bill Conti da trilha sonora, enquanto isso faço aquecimento, pego a corda, desligo o micro e saio correndo pelas ruas sem destino, vento gelado no rosto, ruas escuras, desabitadas, o coração a 160, aí esse número me lembra daquela música do Roberto Carlos e eu viro a esquina cantando "Detalhes" em espanhol.

Mas hoje não. Hoje é dia de executar o projeto Babilônia em Chamas. Sodoma e Gomorra revisited. Hoje é dia de encher a cara e ir no White Trash, o clube mais legal do mundo, o CBGB's europeu. O plano? Beber e dar risada. Nada mais.

E amanhã é dia de acordar impune, sem ressaca, sem ressalvas e sem ressentimentos. I hope so.


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Update: balada cancelada. Amanhã inicio o projeto "European Balboa 2006".

30.10.06

Mulheres

O que são mulheres?

As mulheres, assim, como um todo...o que são?

Digo, como um gênero, pois nenhuma mulher é igual às outras. E talvez esse seja o charme, o mistério. Por mais mulheres que você conheça em sua vida, por mais fêmeas que você seduza, por mais mentiras que você conte pra conseguir comê-las, por mais noites que você atravesse bêbado caçando-as pelas ruas, você nunca vai conseguir decifrá-las "de cara".

Pra conquistá-las não há fórmulas gerais, não adianta pensar em variáveis como x + y = z. Toda vez que você conhece uma nova mulher você se sente como se estivesse na primeira aula de matemática de sua vida. Tendo que resolver uma equação dificílima, sem nem ao menos saber somar.

Eu desconfio desses métodos criados para conquistar mulheres. "Fale isso", "elogie aquilo", "deixe-a falar, ela gosta". Eu já conheci mulheres falantes, mulheres tímidas, mulheres mudas. Já conheci burras, loucas, mulheres geniais, mulheres insuportáveis. Logo não há um método seguro de conquista. Cada uma das mulheres do mundo provavelmente vai gostar de ouvir uma abobrinha específica dita somente pra ela.

Há, entretanto, alguns padrões que facilitam nossas vidas. Por exemplo, saber o gosto musical da pequena. Ou os autores preferidos. Porque aí você já tem assunto, já achou uma brecha, a flechada será certeira, a menos que você seja muito cabaço. Conhecer as mulheres de antemão é praticamente um manual de instruções, "aperte aqui", "levante ali", "vá devagar aqui", é um mapa rodoviário. Mas e aí, qual é a graça nisso? Se você tem acesso a essas informações de antemão, como eu disse, é mel na chupeta. Se você está stalkerando o mundo no orkut e de repente se depara com uma donzela solteira e gostosa, basta pedir truco e jogar as cartas certas na mesa. Pôxa, você sabe quase tudo que ela quer ouvir. E pode deduzir o resto se tiver um mínimo de inteligência.

Eu acho isso tudo muito chato, sabe? Já fiz essas cafajestagens algumas vezes, mas com o tempo isso vai perdendo a graça. Chega uma hora em que o orkut se torna um açougue. Você entra ali e escolhe o que vai querer comer: picanha, maminha, chuleta. E isso funciona também com blogs e flogs. O mais importante é você descobrir uma fonte de informação sobre a mulher. Pronto.

Eu me cansei disso. É bom, por um lado, porque você multiplica sua vida sexual. Mas por outro lado você chega à conclusão de que esse jogo é muito sem-sal. Eu parei com isso há mais de um ano. Se você utiliza esse método pra comer a mulherada você acaba perdendo a capacidade de se deixar surpreender por uma mulher. Você já entra em campo sabendo da vitória, aí nem corre atrás da bola com vontade.

Se você conhece uma mulher sem saber nada a respeito dela as coisas mudam. É como se você tivesse acabado de receber aquele kit de químico mirim de Natal. Você sorri e pensa: "que tesão, tenho tanta coisa pra explorar aqui!". Você volta a sentir aquele friozinho gostoso no estômago, você pensa meticulosamente no que falar pra agradar sua presa, você a decifra aos poucos, cava lentamente até achar a mina. Isso lhe porporciona um sentimento de satisfação. Quando você tem a sorte de conhecer uma menina legal.

Geralmente não é esse o caso. Na maioria das vezes eu jogo a toalha depois de 2 minutos de conversa. Se a menina não se mostra especial nesses dois minutos eu nem me dou mais o trabalho de falar com ela. Geralmente viro as costas e vou embora. Ou agarro-a logo e beijo, se for uma gostosinha. Porque nem sempre tudo está perdido. Há mulheres pra conversar, há mulheres pra transar e há mulheres pra conversar e transar, e geralmente são por essas últimas que nos apaixonamos.

Mesmo sem usar a tática de descobrir as preferências da mulher é possível ser bem-sucedido na conquista. Basta treino. E um bom arcabouço cultural. Eu costumava me testar às vezes. Pra ver o quão bem eu mentia ou me camuflava. É esse o segredo: ser um camaleão no amor. Se você aprende a reconhecer as reações femininas num curto espaço de tempo, você nem precisa chegar armado no campo de batalha. Lembro que uma vez eu conheci uma menina numa boate e logo falei pra ela que eu era roqueiro, mas pelos rumos da conversa descobri que ela era meio hippie. Em 5 minutos eu já tinha contado sobre minhas viagens (que nunca fiz) a São Tomé das Letras, sobre acampar em cachoeiras, sobre fumar maconha, amor livre e Janis Joplin. Pronto, depois de 10 minutos eu já estava a trocar fluidos bucais com ela.

Mas eu juro, uma hora isso cansa. Uma hora você deixa de acreditar que será surpreendido por uma bela conversa, por idéias originais, por um bom senso de humor. Tudo isso naturalmente acompanhado do sagrado trio 90-60-90. Chega uma hora em que você desiste. Há mulheres legais pelo mundo? Há, com certeza. Onde elas estão? Boa pergunta. Namorando, provavelmente. Ou talvez elas sejam espertas demais, talvez elas sejam imunes às mentiras de um conquistador barato e machista como eu.

Eu juro que não sei. Só sinto medo de ter perdido a capacidade de me apaixonar, como eu disse, de me deixar surpreender por uma mulher interessante. Estarei fadado a uma vida de mentiras e sexo avulso? Serei eu um seguidor do velho Bukowski? Não sei. Só sei que fico com ânsia de vômito quando leio ou escuto algo relacionado a esse estúpido mito do amor romântico. Quando você se torna dono do amor, você perde a capacidade de amar.

29.10.06

Devolution

Tenho questionado a presença da intenet em minha vida.



Ou melhor: a minha presença na internet. Não apenas por causa do blog, mas sim como um todo.

Só pra provar...

que a frase é realmente dele:



Nick Hornby é genial. Bon Jovi também.

"Good things come to those who wait".

28.10.06

Fat Disability Homer



"Americanos acima do peso são presos por se declararem obesos"

Pois é, a vida imita a arte às vezes. Pra quem não sabe, há um episódio dos Simpsons em que Homer passa algumas semanas comendo montanhas de comida gordurosa pra ganhar peso e se tornar um obeso desabilitado ao trabalho. Ele consegue. É um de meus episódios favoritos. Mas porra, quem é o estúpido que faz isso na vida real? I'm afraid of americans.

27.10.06

New Readings

-> "Fear and Loathing in Las Vegas", Hunter S. Thompson.

-> "The Brotherhood of the Grape", John Fante.

-> "Factotum", Charles Bukowski.

-> "The Game", Neil Strauss.

-> "The Corrosion of Character", Richard Sennet.

Os 3 primeiros são típicos livros que todo indie-de-cu-é-rola gosta de citar, mas isso não lhes tira o brilho, basta ler e ficar quieto. O segundo é um tiro no escuro mas gostei da sinopse, procurem no amazon, estou cansado. O último é sobre a natureza humana. Eu acho.

26.10.06

Love

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How to fall in love and sound stupid - part I

*** O lugar da festa de hoje é o mesmo mencionado no post abaixo, que publico novamente atendendo a pedidos. ***

O cara chega à festa. Bem arrumado, gel no cabelo, perfumado, "well I don't know why I came here tonight, I got a feeling that something ain't right". O cara cumprimenta umas pessoas que ele conhece e cujo convívio social ele tolera. Passa por entre as mesas, vai até o balcão. Senta num banco de veludo cor de vinho, olha pros lados, bate a mão no bolso direito, alcança a carteira de cigarros, tira o lacre, embrulha bem e joga no segundo cinzeiro mais próximo, se jogar no primeiro aquilo vai pegar fogo e soltar um cheiro horrível. Acende o cigarro, tenta esconder uma leve tremedeira. Pede uma cerveja, toma-a em goles largos, quer se embriagar, não é fácil estar no meio de tanta gente.

Chegam uns conhecidos do cara. Uma conversa bacana começa a rolar, falam sobre passagens bíblicas, o sentido da vida, house music dos anos 90 e sobre redutos de prostituição. O cara toma umas 3 ou 4 cervejas, já fica mais relaxado. Até se esquece da sua falta de auto-estima, o cara se desinteressa pela conversa e passa a olhar por cima das cabeças alheias, ele ainda não sabe quem procura, pelo menos não conscientemente. O cara fala aos outros que vai tentar socializar um pouco, nunca é tarde pra começar. Ele se dirige até a beirada da pista de dança, copo de cerveja na mão, e não sabe por onde começar. E as passagens bíblicas voltam à mente: ame o próximo como a ti mesmo. Ok, em teoria é fácil, já temos um objetivo. Mas qual será o caminho? Como fazer isso? O que significa me amar? Como falar com essas pessoas estranhas?

Aí o cara percebe que aquilo ali não vai dar em nada, ele pensa em desistir, terminar aquele copo de cerveja e ir embora, ele definitivamente não nasceu pra compartilhar daquele tipo de felicidade coletiva, ele procura respostas pra entender o porquê, mas sem parecer fraco, e aceitar a derrota, então ele covardemente acha um atalho e culpa a natureza, a sua natureza, pensa que é selvagem demais, um bicho do mato que foge assustado da luz, ele não tem coragem pra assumir seus defeitos, é difícil demais mudar.

Eis que ele olha pra frente e a vê. A revê, na verdade, porque com ela já tinha sonhado. Ela caminha vagarosamente em sua direção, olhos nos olhos, a música vai diminuindo de volume lentamente como em qualquer cena clichê de comédia romântica, as luzes ao redor se apagam, o mundo se reduz àqueles dois.

Ela pergunta o nome do cara, diz que não consegue guardar nomes, mas que se lembrava dele, e ele diz que também é ruim com nomes, mas que milagrosamente conseguia lembrar o dela. Ele está visivelmente nervoso, tenta não deixar aquilo florescer, então ele engata uma conversa qualquer, como por exemplo sobre a beleza semântica do verbo "florescer", e ela gosta da conversa, ou pelos menos finge gostar, o ser humano faz tudo pelo amor. Os dois esquecem a festa, vão até uma mesa, conversam como se fossem amigos há anos, eles se abraçam diversas vezes, sorriem bastante, a conexão entre suas almas funciona em banda larga de alta velocidade, ambos contam suas vidas, dividem suas visões de mundo, segredos, o cara vai ficando mais à vontade, está tão feliz que nem consegue mais prestar atenção ao que a menina fala, ele concorda com tudo, apenas olha para aqueles olhos verdes e sorri, torce para que ela não pergunte nada, ficaria chato responder concordando.

Aí ela pergunta se ele gosta de dançar, e ele sorri e diz que é tímido e que gosta sim, e eles vão pra pista e dançam com uma cumplicidade capaz de despertar inveja em irmãos gêmeos idênticos, e eles se abraçam novamente, algumas meninas de fora tentam entrar no meio e acabar com aquela alegria, eles sorriem um pro outro debochando de tudo aquilo, vão tomar mais um cerveja. E ela o convida para uma visita, ela mora em outra cidade, diz que vai visitá-lo também, e enquanto ela vai pegar mais uma cerveja ele vai ao banheiro, e quando ele volta eles se perdem de vista.

Ele a vê conversando com outras pessoas e resolve ficar na dele, não quer incomodar, ficar em cima dela, isso enche o saco, ele espera ela voltar. E ela, no outro canto da festa, olha pra ele como se esperasse que ele viesse até ela, mas ele está lá no outro canto, tomando uma cerveja sozinho, aquele cara é muito cool, ela fica intimidada, talvez ele queira ficar sozinho um pouco, e assim a impureza dos corações humanos espreme suas gotas amargas de limão e começa a manchar aquela bela história.

O cara fica meio impaciente, quer estar do lado dela novamente, então ele vai comendo pelas beiradas, entra no meio da pista de dança, tenta parecer ainda mais cool, e aquelas mesmas meninas que queriam estragar tudo vão pra perto dele, e a menina dos olhos verdes observa tudo aquilo pensando se ele não seria apenas um cafajeste de ocasião, e ele dança com os olhos fechados esperando um milagre, que ela venha até ele e o convide pra mais uma cerveja, pra mais um sorriso, mais um abraço carinhoso. E o tempo passa e o cara resolve dar uma volta.

Eles ficam um tempo sem se ver, cada um se escondendo à sua maneira, ninguém quer dar o braço a torcer, e o coração vai ficando cada vez mais apertado. E o DJ coloca uma música da Madonna nas pick-ups, e o cara vai de novo pra pista e encontra a menina dançando sozinha, e eles se entreolham e sabem que não há nada mais pra se fazer a não ser beijar e ser feliz, o objetivo está definido, ame essa menina da mesma forma como você se ama, mas puta que pariu, o cara não sabe como fazer isso.

O cara vira pra menina, olha pro relógio e diz que odeia despedidas, que na verdade ele não liga pra despedidas, mas que vai ser difícil se despedir dela, ela diz que estava pensando exatamente o mesmo, então os dois resolvem trocar seus contatos ainda no meio da festa pra evitar toda aquela dor no final, eles decidem simplesmente não se despedir.

E a menina vai até o bar e pede um papel e uma caneta, escreve seu telefone e seu e-mail e entrega pra ele com brilho nos olhos, entrega-lhe também um papel pra que ele escreva seu telefone, ele diz que aquele papel é pequeno demais, toma a caneta e vai pro banheiro, apanha um pedaço de papel de enxugar as mãos, apanha logo dois, senta numa mesa e escreve.

Ele escreve que em certas ocasiões os poetas têm dificuldades em demonstrar seus sentimentos, principalmente quando se encontram sob pressão, e que a pressão de uma despedida é um fardo que ele não consegue carregar. Ele tece elogios à menina, assume estar perdidamente apaixonado, escreve seu telefone, e-mail, pede que ela se cuide e que escreva mandando notícias, e ainda faz um desenho qualquer pra quebrar o gelo. O cara então dobra esse papel. Desdobra-o. Escreve no título: "isso não é uma declaração de amor". Dobra de novo. Desdobra. Escreve embaixo do título: "ok, talvez seja sim". Aí ele fica com medo daquele frágil papel reciclado de banheiro rasgar com o peso de suas palavras, dobra-o meticulosamente.

Ele caminha até a pista, encontra a menina, pega sua mão, leva-a até um canto, deposita o pequeno embrulho em sua outra mão, olha nos seus olhos e diz: "está tudo aqui dentro". Então ele passa sua mão sobre os cabelos da menina, dá-lhe um beijo na testa, olha novamente pros lindos olhos verdes, vira as costas e vai embora.

Ele caminha lentamente pelas frias ruas, esperando um toque no seu celular, mas o telefone permanece mudo. Ele diminui o passo pensando que a menina pode a qualquer momento sair correndo da festa e vir ao seu encontro. Mas isso não ocorre. Chega a hora de dobrar a esquina, a esquina que definitivamente colocará um ponto final naquela noite. E ele chega em casa perdido, se sente só, não sabe o que fazer, se deve ligar o som, tomar um banho, ver TV ou simplesmente chorar. Ou esperar ansiosamente pelo próximo capítulo dessa história.
Update: menti pra vocês, essa história é verídica e aconteceu comigo. O que rolou depois? Trocamos uns 2 e-mails, and it's all over now, baby blue.

25.10.06

The Broken Hearts Club Berlin

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Lá vou eu.

Para fotos das festas anteriores, clique aqui.

23.10.06

Cassete carinhoso

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Gerador de cassetes aqui.

Dica do André.

20.10.06

Any given thursday

Quando o ser humano vive sem expectativas, a possibilidade de ele ser surpreendido positivamente é muito grande. Em outras palavras: quanto maiores forem as expectativas, maiores são as chances de frustração.

Estava eu aqui em casa pensando em comer algo e cair na cama, quando o telefone toca. Eu odeio quando o telefone toca, tomo um susto lazarento. Comparável à reação de uma pessoa normal que escuta o alarme de incêndio em sua casa. A única diferença é que eu não saio correndo pelas escadas de incêndio. Mas eu realmente fico puto da vida, bravo mesmo. Haja fobia social.

Pois era um amigo que eu não via havia tempos. Ele me disse que estava perto de casa e queria tomar uma cerveja. Topei com um certo receio, afinal o fim do meu dia já estava mais ou menos programado. Combinei de me encontrar com ele num restaurante aqui perto que vende comida marroquina. Aproveitei pra provar um delicioso schawarma e tomei um suco de manga. Eram mais ou menos 20:30, decidimos escolher um bar nas redondezas. Como queríamos ir a um lugar diferente, optamos pelo "bar político". Na verdade esse não é o nome oficial do estabelecimento, mas sim o apelido que esse meu amigo deu ao bar. Eu já sou mais extremo, chamo a espelunca de "bar comunista". Meu amigo tentou me convencer de que o bar seria mais anarquista do que comunista, mas não conseguiu. Nesse bar não há garçom e tem um bando de radicais de esquerda. Se você adentra o recinto com pinta de playboy ou burguês consumidor de mp3 player com fones de ouvido brancos, você está perdido. Eu me visto de uma forma bem comum, ou seja, passo batido em qualquer ambiente. Jeans, botina e malha de lã. Um foda-se pra tudo.

O "bar comunista" estava cheio demais, então resolvemos seguir adiante. Sugeri um bar dos anos 60 chamado "Yesterday", era apenas duas quadras acima. Meu amigo sugeriu que bebêssemos uma cerveja no caminho, eu nem preciso concordar com esse tipo de sugestão. Entramos num quicky-mart atrás de uma tal cerveja russa. Achamos. Uma delícia. 8% de álcool, uma bomba praticamente. Andamos até o bar dos anos 60 mas desistimos de entrar. Sentamos numa praça e ficamos bebendo e falando sobre mulheres. Parecíamos dois russos desempregados pós-queda do muro de Berlin, daqueles que ficam o dia inteito bebendo cerveja barata nas esquinas, falando sobre o nada, aqueles que dormem ouvindo Wind of Change do Scorpions todo dia, saudosistas. Típico mendigo proletário. Discutimos sobre a lei brasileira que proíbe a mendicância e a vadiagem, aí o papo já partiu pras filosofias, a noite estava apenas começando.

Como estávamos falando de bandas russas dos anos 80 que emulavam Scorpions e Bon Jovi, sugeri irmos até um bar russo chamado Gorky Park. Cerveja russa, ora bolas. Fomos. Não havia espaço dentro do bar, ou seja, sentamos em uma mesa do lado de fora, 8°C, em nossa companhia algumas russas mid-30s que riam tão alto a ponto de dar aquela famosa inveja revestida sob forma de incômodo. Partimos pra canecas de meio litro, cerveja "Moskwa". Falávamos mal do mundo e nos divertíamos com a superficialidade de tudo e de todos, discutíamos sobre o conceito de arte, sobre a inutilidade da pintura abstrata e, claro, sobre mulheres. Uma loira estonteante passa do nosso lado, uma deusa germânica, cerca de 1,80m de puro pecado, rosto inequívoco. Solto logo um alto "nossa, muito gata essa alemoa". Aqui eu sou livre pra falar o que eu quiser, ninguém me entende mesmo. Ela entra no bar e passa de mesa em mesa falando algo. Sai, vai até a mesa das russas, fala algo e vai embora. Sem passar pela nossa mesa. Falei pro meu amigo: "cara, a gente deve tar com cara de russo perdedor mesmo, a gostosa nem veio falar com a gente". Meu amigo se levanta e fala: "vou tirar isso a limpo". E eu fico os próximos 15 minutos sentado sozinho na mesa tomando a minha cerveja russa e olhando meu amigo conversar com a teúda-manteúda. Ele volta todo feliz: "ela fala português!". Retruco: "ora, mas então ela entendeu quando ela tava do meu lado e eu falei que ela era muito gostosa". Pronto, sabíamos porque ela não tinha vindo falar com a gente. Depois meu amigo contou que no fim das contas nem era isso, ela não veio falar com a gente porque ouviu nossa conversa e pensou que nós não nos interessaríamos pela assinatura de jornal que ela estava vendendo. "Mas como assim, uma deusa dessas, linda, que fala 4 idiomas, vendendo assinatura de jornal na rua às 23 da noite?". Pois é, é a situação atual da Europa, tem muita gente ralando pra sobreviver.

Enquanto falávamos sobre a menina, fomos abordados por um português-brasileiro que queria fazer amizade. Batemos um papo e ele disse que não falava nada de alemão e queria conhecer gente nova e cair na putaria. Dei a ele algumas dicas e nos despedimos.

Meu amigo estava tão eufórico por ter conhecido a gostosa (e eu com uma certa inveja, claro) que disse que queria tomar mais uma cerveja. Fomos a outro bar, havia música ao vivo. Uma garçonete do bar é vizinha desse meu amigo, uma russa de cabelo bem preto, traços bem marcantes, seios firmes e volumosos, quadris brasileiros e um sorriso que faz levantar defunto. Ficamos conversando um pouco, eu jogava de quando em quando um gracejo em seus ouvidos, claro, sem fazer qualquer tipo de elogio ou demonstrar demasiado interesse. E vi que meio que sem querer eu consegui apertar o botão "on" dela. Aí ela já veio perguntando onde eu morava e se eu sabia tocar violão, eu disse que sim, e que cantava também, e decidi tirar o time de campo, o jogo tava fácil demais, mel na chupeta.

Cerveja vai, cerveja vem, desce macia, e eu vi que havia outra menina atrás do balcão. Loira, pele bem branquinha, sem maquiagem, pele esteticamente macia, uma luva, cabelos presos às pressas, lindos, convidativos, uma discreta blusinha preta com mangas compridas, seios trancados a sete chaves, uma longa saia duma cor clara que não sei descrever agora, mais clara que bege. Era um anjo. Maria havia crescido, deixou João na floresta comendo doces e veio morar na cidade grande. Eu nem queria mais beber, mas a possibilidade de receber uma cerveja das mãos dela e levar meus olhos até os seus foram a passagem de ida que comprei rumo à embriaguez consciente. E acho que ela gostou de mim. Mas não havia nenhuma brecha pra eu falar com ela, Maria estava atarefada, o anjo noturno que enchia copos com cerveja de trigo, nem o som da banda ao vivo eu conseguia escutar, a russa dos cabelos cor de petróleo dançava como se ninguém estivesse vendo, eu certamente não estava. Apanhei um flyer de papel sulfite, pedi uma caneta pro meu amigo, caneta tinteiro, estou bêbado, provavelmente vou quebrar essa ponta, foda-se. Escrevi um bilhete. Amassei, descartei. Outro. Outro. Pronto, agora esse é o último pedaço de papel, eu tenho que ser original, tenho cerca de 6 linhas, minha única chance de fazer essa menina se interessar por mim, ligar pra tomarmos um café, por ela eu até perdôo o telefonema que me assusta. Escrevi. Dobrei o bilhete. Entreguei nas mãos dela, aquele olhar entreguista, aquele bêbado com cara de russo desempregado lhe confessando tudo pelos olhos, eu me sentia nu na frente dela, eu havia perdido a batalha, nem era preciso entregar o bilhete. Eu deveria ter entregado um bilhete em branco, bem dobrado. Afinal ela nem precisaria abrir pra saber o que eu queria, meus olhos não conseguem mentir quando eles mais precisam, será que precisam?

Saí de lá, subi umas escadas do lado do bar pra ir até o banheiro, nas escadas encontro o português de uns bares atrás, o cara que estava sozinho havia algumas horas atrás, procurando amizades, agora estava com um grupo de 10 pessoas, todos animados, mulheres bonitas. "Conheci esse povo na rua, tamos indo pra balada, quer ir junto?". "Pra quê, acabei de perder uma batalha", pensei em dizer. Eu moro nessa cidade há 2 anos e constato que em uma noite o português fez mais amizades que eu nesses dois anos, há algo de errado comigo, merda de bilhete, merda de olhos, merda de cerveja. Enfim, a noite acabou. Uma quinta-feira qualquer. Troquei telefones com o português, preciso aprender certas coisas com esse cara. Despedi-me, meu amigo ainda estava no bar, eu vou pra casa.

O frio agora batia com mãos abertas em minha cara, estou com fome, quero ir pra casa, quero voltar lá e enfiar minha língua na boca da russa gostosa, Maria venceu a batalha, mas ainda estou vivo, ainda estou bêbado, são 3 horas da madrugada, vou pra casa dormir, há muito o que aprender nessa vida, de que adianta saber filosofar quando não se sabe viver, viver é agir, viver não é pensar, e já estou a falar merda de novo.

Que venha a sexta-feira com todas as suas expectativas.

18.10.06

German cinema

Dia desses eu tomei coragem e fui ao cinema com uma amiga. Fomos a um desses "blockbusters", tipo Cinemark ou UCI, não me lembro ao certo do nome desses cinemas enormes de São Paulo. Enfim, vi um filminho meia-boca cujo nome me foge agora (ê memória), mas fiquei impressionado com as instalações do cinema. Acho que eram 20 salas. No corredor principal há lojinhas com pipoca e refrigerantes a preços extorsivos, as usual.

Antes do filme passou uma propaganda da Häagen-Dazs, e olhem só: assim que a propaganda acabou entrou na sala um caixeiro-viajante vendendo potinhos promocionais do sorvete. Vejam só os rumos que o capitalismo está tomando. Daqui a pouco nossa privacidade será invadida de forma mais incisiva ainda, aguardem. Já imagino um casal pelado no motel começando o esfrega-esfrega sobre a cama, quando um vendedor de camisinhas, calcinhas comestíveis e gel sabor abacaxi com hortelã sai de baixo da cama falando da promoção imperdível.

Enfim, o que mais me chamou a atenção no cinema foi um tapete. Sim, um tapete. No corredor das 20 salas há um tapate vermelho enorme com o script de Taxi Driver escrito com uma fonte bacana de máquina de escrever. Fiquei pasmo com idéia. E o mais legal: você tem que ler no mínimo 1/4 do tapete pra se ligar de qual filme se trata. Ou seja, pessoas comuns pisam diariamente sobre a genial idéia sem fazer idéia do que se trata. Bacana, né?

Na saída do cinema você ainda leva um jornal, tipo o Estado de SP, na faixa.

Acho que estou começando a gostar de cinema. Mesmo com a entrada a 8 euros. Ah, esqueci de falar: os ingressos são numerados, ou seja, você ainda escolhe o lugar em que quer se sentar, podendo inclusive fazer a reserva pela internet. Tenho que assumir: aqui algumas coisas funcionam mesmo.

Sobre a foto

Caso vocês não tenham identificado, quem está na foto ao lado é Chris Isaak, um dos maiores "baladeiros românticos" do nosso tempo. Ele tem músicas muito boas como "Wicked Game" e "Blue Hotel", assim como covers de Johnny Cash e Roy Orbison. Recomendo a todos.

Sobre o blog

Eu fiz esse blog pensando em escrever coisas agradáveis, mas nem só de alegrias vive o homem. Haverá de tempos em tempos um desabafo ou outro, ou uma bronca, como foi o post abaixo. Estive cogitando a possibilidade de abrir um blog paralelo apenas pra dar vazão a sentimentos menos nobres, onde eu possa fazer críticas ácidas sem macular o ar "romântico" desse blog. Mas como amor e ódio andam lado a lado eu resolvi escrever tudo aqui mesmo. Afinal este espaço é destinado única e exclusivamente às minhas idéias. Logo, não preciso agradar ninguém. Pretendo falar tudo abertamente, como sempre. Como disse o Renato: nós não somos maus, é a convivência humana que nos faz ser ácidos em resposta aos absurdos que vemos no dia-a-dia. Ou seja, esse blog tratará de minhas reações. E de meus amores e desamores em geral.

Socando a lingüiça

Se você abrir qualquer dicionário e buscar a palavra "vegetariano" provavelmente você vai encontrar uma definição parecida com "aquele que se alimenta de vegetais", ou seja, são os seres humanos herbívoros por escolha.

A minha definição de "vegetariano" é bem diferente. Pra mim, "vegetarianos" são seres humanos hipócritas, intolerantes e extremistas religiosos que julgam os outros seres humanos constantemente, tentando provar por meio de táticas de guerrilha psicológica que comer carne é algo inaceitável.

Basicamente é isso. Raramente conheci um vegetariano moderado, que come suas folhinhas quieto e deixa os outros comerem o que quiserem. E é mais ou menos essa a minha crítica: os vegetarianos acham que "têm moral" pra condenar os hábitos alimentares alheios, e tentam fazer lavagem cerebral em quem come carne.

Do ponto de vista moral isso já é um absurdo. Ninguém tem o direito de julgar as escolhas pessoais alheias, e por isso mesmo eu digo que há vegetarianos nazistas. Pessoas que não têm o mínimo respeito pela esfera pessoal do próximo. Eles se acham no direito de falar, por exemplo: "você não tem vergonha de comer um animal morto?". E acham que não há problema em falar isso, já que eles teoricamente encontraram a verdade universal da alimentação sadia. Por isso se acham aptos a julgar os "infiéis".

Agora eu pergunto: julgar os hábitos alimentares de uma pessoa não seria tão absurdo, hoje em dia, como julgar a preferência sexual das pessoas? Sim, seria. E é exatamente o que ocorre. Chegamos a uma etapa da civilização na qual o consenso mostra que o que cada um faz entre quatro paredes não é da conta de ninguém. Por que seria, então, da conta dos outros, o que cada um come? Esse é apenas o primeiro absurdo.

Comer carne, assim como fazer uma escolha sexual ou dar preferência a determinado estilo musical, não interfere na vida de mais ninguém, a não ser da pessoa que fez a escolha. Não é um hábito socialmente condenável como o fumo, que prejudica a vida de outras pessoas. E por isso mesmo deve permanecer na esfera privada. Se eu como carne o problema é meu, se minha vizinha só come cenoura e chuchu o problema é dela, foda-se.

Mas vocês sabem que não é assim. Os vegetarianos tentam nos provar a todo instante que estamos errados. E a cada dia que passa eles se estigmatizam como "pessoas chatas". Uma vez um amigo meu deu um churrasco em casa e não convidou uma amiga vegetariana porque sabia a cara de cu que ela faria na presença de uma churrasqueira. E sabia que a menina ia querer colocar o assunto em discussão pra tentar arrebanhar mais algumas ovelhas. Há, como eu disse, vegetarianos que conseguem viver em harmonia com "os outros mortais ignorantes que comem carne". Esses levam um tupper ware cheio de grama pro churrasco ou pro trabalho, e geralmente são motivo de piada, mas tudo bem. Piada não é intolerância.

E os vegetarianos levam essa doutrina tão a sério que acabam parecendo cabos eleitorais do PT ou pastores de igrejas evangélicas. Espero nunca conhecer em minha vida um pastor petista vegetariano. Pois sem sombra de dúvida seria a personificação do diabo. Ao tentar nos impôr sua religião verde, os vegetarianos esquecem que religião se escolhe, nunca se impõe. Eu odeio panfletários.

Vou falar do meu caso agora. Há alguns anos eu venho refletindo sobre meus hábitos alimentares, e pensei bastante sobre a carne. Fiz análises filosóficas, biológicas, sociológicas, psicológicas e tudo mais. E cheguei à seguinte conclusão: o ser humano ainda é um animal, por mais que tente se enganar. E os seres humanos não são todos iguais. Alguns digerem melhor a carne, outros o leite, outros o vegetal, tudo depende do seu tipo sanguíneo. Mas todo ser humano precisa de uma fonte de proteína, é fato. E carne tem um gosto bom, é algo meu, subjetivo. Colocadas as cartas na mesa, cada um que faça sua escolha. Eu tenho comido muito pouca carne vermelha ultimamente. Como frango com certa frequência, assim como peixe. Não como carne de porco, exceto presunto e salame (pigs are filthy animals). Sou feliz assim e não julgo aqueles que fazem diferente, quero mais é que se fodam. Às vezes eu vou dar uma mordida num cheeseburger e penso que aquilo ali já foi um ser vivo com sentimentos e tal, mas aí eu me lembro que ainda sou humano-animal e preciso sobreviver.

Acho que o segredo de tudo é isso: por mais "elevado" que você seja, você sempre vai ser um animal semi-racional, independente do que você coma. E se você sente pena dos bichinhos do mundo, vá fazer como o Grizzly Man (provavelmente vegetariano), vá morar com os ursos e seja devorado vivo. Eu ainda nao achei minha resposta PESSOAL e definitiva sobre comer carne ou não, e às vezes fico me perguntando coisas do tipo "porque você acha OK comer carne de vaca, mas nunca comeria carne de cachorro?". Porque com o cachorro nós temos laços afetivos, mas disso não resulta que comer carne em geral é errado. Os vegetarianos se acham evoluídos e melhores que os outros, são "menos animais" que a gente. Por suas personalidades, acredito até que já conseguiram excluir o sexo de suas vidas. O dia em que vocês, vegetarianos, conseguirem parar de cagar e mijar, me avisem. Faço questão de lhes entregar o Prêmio Elfo pessoalmente

Finalizando, escrevi tudo isso pra sinalizar que não tenho nada contra o vegetarianismo, é uma escolha personalíssima. Mas considero os vegetarianos xiitas um bando de idiotas, e cada vez que um deles vem me falar mal do hábito de comer carne eu começo a salivar pensando no próximo hamburger.

Eu tolero tudo nessa vida, menos intolerância.

6.10.06

Em busca do cálice sagrado

Muita gente se questiona sobre o sentido da vida. Isso depois de uma certa idade, claro. No primeiro ano de vida o sentido da vida é mamar. Dos dois aos três é aprender a andar, falar, cagar e escovar os dentes sozinho. Aos cinco é aprender a andar de bicicleta, aos seis é jogar os dentes-de-leite no telhado pro rato vir buscar (?).

Pausa. Eu não me lembro se eu destinava meus dentes-de-leite extraídos aos ratos do telhado ou se os deixava debaixo do travesseiro pra fada dos dentes buscar. Enfim.

Aos sete é aprender a escrever corretamente. Dali até os 12 o sentido da vida é não ser escolhido por último no time de futebol da classe. Depois vêm as mulheres, aí fodeu. O sentido da vida aos 13 é beijar no bailinho da escola. Aos 14 é beijar e ser elogiado, sem morder ou babar. Aos 15 é ser eleito o melhor beijador da turma. Mais ou menos por aí o sentido da vida é conseguir ejacular. Depois é ver os pêlos crescerem pelo corpo. E conseguir falar sem gaitear.

Aos 16 o sentido da vida é comer aquela gostosa da sua classe. E beber mais que todos os seus amigos. Aos 17 o sentido da vida é fazer um "x" no lugar correto do manual da Fuvest. E passar na Fuvest.

Aos 18 o sentido da vida é ganhar um carro, beber mais que todos os seus amigos da faculdade e comer as gostosas mais velhas. Dos 18 aos 23 o sentido da vida é passar de ano e permanecer vivo e sem problemas com drogas, bebendo e transando todos os finais de semana. Desculpe os clichês, falo de minha realidade burguesa e dela não me envergonho.

Aos 23 o sentido da vida é conseguir se formar. Aos 24 é conseguir um emprego, sair de casa e começar a tocar sua vida sozinho, finalmente. Ganhar seu próprio dinheiro e ser feliz, basicamente.

Aí as coisas começam a complicar. Porque você já fez basicamente tudo que a sociedade ou seus pais esperavam de você. Você passou todas as fases do Super Mario, matou o Koopa, comeu a Princesa e agora está sentado numa sarjeta qualquer, sem saber se deve pegar o ônibus que sobe ou o que desce a rua.

A sua liberdade começa e te incomodar, você fica de saco cheio daquela rotina acordar-trabalhar-almoçar-trabalhar-voltar pra casa-ver TV-dormir. Você perdeu o sentido da sua vida.

Começam nessa fase da vida a aparecer alguns nós psicológicos em sua cabeça. Problemas mesmo. Algumas vítimas se escondem no trabalho, outras se escondem no namoro, alguns se escondem na bebida e fogem de si mesmos. Não têm coragem de encarar a vida de frente. E agora?

Alguns buscam refúgio no consumismo, dando razão à sua existência com iPods, máquinas fotográficas, carros, roupas de marca e mesinhas de centro do atual catálogo da Ikea (uma espécie de Tok-Stok mundial). E alguns se maravilham com filmes como Clube da Luta ou Beleza Americana, mas pouco fazem pra mudar suas ordinárias vidas.

As mulheres dessa idade possuem ainda mais um problema. A natureza chama, é hora de casar e ter filhos, infernizar a vida do namorado ou se tornar uma mal-amada e infernizar o mundo em geral. Pobres mulheres. Nada se pode fazer contra esse chamado, talvez seja a última oportunidade.

E as pessoas em geral buscam hobbys pra amenizar esse desespero da alma. Uns colecionam revistas de histórias em quadrinhos, outros fazem Yôga sob o pretexto de conhecer gente legal e atrair estranhos em suas miseráveis vidas, outros lêem.

Eu não tenho medo dessa liberdade dos 20-e-poucos. Eu sorrio pra ela. Como? Sorrindo, simples. Já passei pelo inferno. E sobrevivi. Não preciso achar um sentido pra minha existência. A vida é um fato, uma realidade. Qual é o sentido do sol? Pergunta besta, né? Você existe e ponto, e o sol também. E o sol faz o que tem que fazer e você deveria fazer o mesmo. Todo mundo tem sua função nesse planeta, mas existência nenhuma tem um sentido. Basta folhear as primeiras páginas dA Política de Aristóletes.

É justo você ainda não saber qual a sua função no mundo. Até porque provavelmente ela não terá muita importância pra ele. A sua função importa muito mais àqueles que partilham de sua vida, a sua família, os seus amigos. E a você, em primeiro lugar. Há pessoas que simplesmente não possuem função nenhuma no mundo em determinadas épocas de sua existência, e eu acho que sou uma delas. E não vejo problema nisso, sei que isso muda com o tempo, há várias fases da vida. Eu sou contra todo tipo de regra pré-existente quando o assunto é de ordem sociológica. Sou contra o trabalho obrigatório na sociedade, sou contra essa merda de troca de mão-de-obra por salário e tudo mais, mas isso é outro assunto que prometo retomar em breve.

Em suma, faça como os sábios chineses e hindus que vivem em paz há milhares de anos: páre de arrumar sarna pra se coçar, sua vida é uma realidade e qualquer tentativa de a ela dar algum sentido vai apenas fundir sua cabeça de símio recém-evoluído. Se tiveres muitas dúvidas acerca da vida, leia a Bíblia, leia os clássicos mas continue em velocidade cruzeiro. É muito triste ver um bando de gente da minha idade completamente perdida e sem rumo. A vida é um imperativo e passa correndo. O que se leva da vida? Nada. O que se deixa no mundo? Lembranças. Com quem ficam as lembranças? Com as pessoas. Porque você é um ser social e afetivo, não se esqueça. Sei lá, talvez até haja um sentido na vida: vivê-la com aqueles que amamos.

Tá com muita dúvida? Faça o que te faz sorrir.