Quando o ser humano vive sem expectativas, a possibilidade de ele ser surpreendido positivamente é muito grande. Em outras palavras: quanto maiores forem as expectativas, maiores são as chances de frustração.
Estava eu aqui em casa pensando em comer algo e cair na cama, quando o telefone toca. Eu odeio quando o telefone toca, tomo um susto lazarento. Comparável à reação de uma pessoa normal que escuta o alarme de incêndio em sua casa. A única diferença é que eu não saio correndo pelas escadas de incêndio. Mas eu realmente fico puto da vida, bravo mesmo. Haja fobia social.
Pois era um amigo que eu não via havia tempos. Ele me disse que estava perto de casa e queria tomar uma cerveja. Topei com um certo receio, afinal o fim do meu dia já estava mais ou menos programado. Combinei de me encontrar com ele num restaurante aqui perto que vende comida marroquina. Aproveitei pra provar um delicioso schawarma e tomei um suco de manga. Eram mais ou menos 20:30, decidimos escolher um bar nas redondezas. Como queríamos ir a um lugar diferente, optamos pelo "bar político". Na verdade esse não é o nome oficial do estabelecimento, mas sim o apelido que esse meu amigo deu ao bar. Eu já sou mais extremo, chamo a espelunca de "bar comunista". Meu amigo tentou me convencer de que o bar seria mais anarquista do que comunista, mas não conseguiu. Nesse bar não há garçom e tem um bando de radicais de esquerda. Se você adentra o recinto com pinta de playboy ou burguês consumidor de mp3 player com fones de ouvido brancos, você está perdido. Eu me visto de uma forma bem comum, ou seja, passo batido em qualquer ambiente. Jeans, botina e malha de lã. Um foda-se pra tudo.
O "bar comunista" estava cheio demais, então resolvemos seguir adiante. Sugeri um bar dos anos 60 chamado "Yesterday", era apenas duas quadras acima. Meu amigo sugeriu que bebêssemos uma cerveja no caminho, eu nem preciso concordar com esse tipo de sugestão. Entramos num quicky-mart atrás de uma tal cerveja russa. Achamos. Uma delícia. 8% de álcool, uma bomba praticamente. Andamos até o bar dos anos 60 mas desistimos de entrar. Sentamos numa praça e ficamos bebendo e falando sobre mulheres. Parecíamos dois russos desempregados pós-queda do muro de Berlin, daqueles que ficam o dia inteito bebendo cerveja barata nas esquinas, falando sobre o nada, aqueles que dormem ouvindo Wind of Change do Scorpions todo dia, saudosistas. Típico mendigo proletário. Discutimos sobre a lei brasileira que proíbe a mendicância e a vadiagem, aí o papo já partiu pras filosofias, a noite estava apenas começando.
Como estávamos falando de bandas russas dos anos 80 que emulavam Scorpions e Bon Jovi, sugeri irmos até um bar russo chamado Gorky Park. Cerveja russa, ora bolas. Fomos. Não havia espaço dentro do bar, ou seja, sentamos em uma mesa do lado de fora, 8°C, em nossa companhia algumas russas mid-30s que riam tão alto a ponto de dar aquela famosa inveja revestida sob forma de incômodo. Partimos pra canecas de meio litro, cerveja "Moskwa". Falávamos mal do mundo e nos divertíamos com a superficialidade de tudo e de todos, discutíamos sobre o conceito de arte, sobre a inutilidade da pintura abstrata e, claro, sobre mulheres. Uma loira estonteante passa do nosso lado, uma deusa germânica, cerca de 1,80m de puro pecado, rosto inequívoco. Solto logo um alto "nossa, muito gata essa alemoa". Aqui eu sou livre pra falar o que eu quiser, ninguém me entende mesmo. Ela entra no bar e passa de mesa em mesa falando algo. Sai, vai até a mesa das russas, fala algo e vai embora. Sem passar pela nossa mesa. Falei pro meu amigo: "cara, a gente deve tar com cara de russo perdedor mesmo, a gostosa nem veio falar com a gente". Meu amigo se levanta e fala: "vou tirar isso a limpo". E eu fico os próximos 15 minutos sentado sozinho na mesa tomando a minha cerveja russa e olhando meu amigo conversar com a teúda-manteúda. Ele volta todo feliz: "ela fala português!". Retruco: "ora, mas então ela entendeu quando ela tava do meu lado e eu falei que ela era muito gostosa". Pronto, sabíamos porque ela não tinha vindo falar com a gente. Depois meu amigo contou que no fim das contas nem era isso, ela não veio falar com a gente porque ouviu nossa conversa e pensou que nós não nos interessaríamos pela assinatura de jornal que ela estava vendendo. "Mas como assim, uma deusa dessas, linda, que fala 4 idiomas, vendendo assinatura de jornal na rua às 23 da noite?". Pois é, é a situação atual da Europa, tem muita gente ralando pra sobreviver.
Enquanto falávamos sobre a menina, fomos abordados por um português-brasileiro que queria fazer amizade. Batemos um papo e ele disse que não falava nada de alemão e queria conhecer gente nova e cair na putaria. Dei a ele algumas dicas e nos despedimos.
Meu amigo estava tão eufórico por ter conhecido a gostosa (e eu com uma certa inveja, claro) que disse que queria tomar mais uma cerveja. Fomos a outro bar, havia música ao vivo. Uma garçonete do bar é vizinha desse meu amigo, uma russa de cabelo bem preto, traços bem marcantes, seios firmes e volumosos, quadris brasileiros e um sorriso que faz levantar defunto. Ficamos conversando um pouco, eu jogava de quando em quando um gracejo em seus ouvidos, claro, sem fazer qualquer tipo de elogio ou demonstrar demasiado interesse. E vi que meio que sem querer eu consegui apertar o botão "on" dela. Aí ela já veio perguntando onde eu morava e se eu sabia tocar violão, eu disse que sim, e que cantava também, e decidi tirar o time de campo, o jogo tava fácil demais, mel na chupeta.
Cerveja vai, cerveja vem, desce macia, e eu vi que havia outra menina atrás do balcão. Loira, pele bem branquinha, sem maquiagem, pele esteticamente macia, uma luva, cabelos presos às pressas, lindos, convidativos, uma discreta blusinha preta com mangas compridas, seios trancados a sete chaves, uma longa saia duma cor clara que não sei descrever agora, mais clara que bege. Era um anjo. Maria havia crescido, deixou João na floresta comendo doces e veio morar na cidade grande. Eu nem queria mais beber, mas a possibilidade de receber uma cerveja das mãos dela e levar meus olhos até os seus foram a passagem de ida que comprei rumo à embriaguez consciente. E acho que ela gostou de mim. Mas não havia nenhuma brecha pra eu falar com ela, Maria estava atarefada, o anjo noturno que enchia copos com cerveja de trigo, nem o som da banda ao vivo eu conseguia escutar, a russa dos cabelos cor de petróleo dançava como se ninguém estivesse vendo, eu certamente não estava. Apanhei um flyer de papel sulfite, pedi uma caneta pro meu amigo, caneta tinteiro, estou bêbado, provavelmente vou quebrar essa ponta, foda-se. Escrevi um bilhete. Amassei, descartei. Outro. Outro. Pronto, agora esse é o último pedaço de papel, eu tenho que ser original, tenho cerca de 6 linhas, minha única chance de fazer essa menina se interessar por mim, ligar pra tomarmos um café, por ela eu até perdôo o telefonema que me assusta. Escrevi. Dobrei o bilhete. Entreguei nas mãos dela, aquele olhar entreguista, aquele bêbado com cara de russo desempregado lhe confessando tudo pelos olhos, eu me sentia nu na frente dela, eu havia perdido a batalha, nem era preciso entregar o bilhete. Eu deveria ter entregado um bilhete em branco, bem dobrado. Afinal ela nem precisaria abrir pra saber o que eu queria, meus olhos não conseguem mentir quando eles mais precisam, será que precisam?
Saí de lá, subi umas escadas do lado do bar pra ir até o banheiro, nas escadas encontro o português de uns bares atrás, o cara que estava sozinho havia algumas horas atrás, procurando amizades, agora estava com um grupo de 10 pessoas, todos animados, mulheres bonitas. "Conheci esse povo na rua, tamos indo pra balada, quer ir junto?". "Pra quê, acabei de perder uma batalha", pensei em dizer. Eu moro nessa cidade há 2 anos e constato que em uma noite o português fez mais amizades que eu nesses dois anos, há algo de errado comigo, merda de bilhete, merda de olhos, merda de cerveja. Enfim, a noite acabou. Uma quinta-feira qualquer. Troquei telefones com o português, preciso aprender certas coisas com esse cara. Despedi-me, meu amigo ainda estava no bar, eu vou pra casa.
O frio agora batia com mãos abertas em minha cara, estou com fome, quero ir pra casa, quero voltar lá e enfiar minha língua na boca da russa gostosa, Maria venceu a batalha, mas ainda estou vivo, ainda estou bêbado, são 3 horas da madrugada, vou pra casa dormir, há muito o que aprender nessa vida, de que adianta saber filosofar quando não se sabe viver, viver é agir, viver não é pensar, e já estou a falar merda de novo.
Que venha a sexta-feira com todas as suas expectativas.
Estava eu aqui em casa pensando em comer algo e cair na cama, quando o telefone toca. Eu odeio quando o telefone toca, tomo um susto lazarento. Comparável à reação de uma pessoa normal que escuta o alarme de incêndio em sua casa. A única diferença é que eu não saio correndo pelas escadas de incêndio. Mas eu realmente fico puto da vida, bravo mesmo. Haja fobia social.
Pois era um amigo que eu não via havia tempos. Ele me disse que estava perto de casa e queria tomar uma cerveja. Topei com um certo receio, afinal o fim do meu dia já estava mais ou menos programado. Combinei de me encontrar com ele num restaurante aqui perto que vende comida marroquina. Aproveitei pra provar um delicioso schawarma e tomei um suco de manga. Eram mais ou menos 20:30, decidimos escolher um bar nas redondezas. Como queríamos ir a um lugar diferente, optamos pelo "bar político". Na verdade esse não é o nome oficial do estabelecimento, mas sim o apelido que esse meu amigo deu ao bar. Eu já sou mais extremo, chamo a espelunca de "bar comunista". Meu amigo tentou me convencer de que o bar seria mais anarquista do que comunista, mas não conseguiu. Nesse bar não há garçom e tem um bando de radicais de esquerda. Se você adentra o recinto com pinta de playboy ou burguês consumidor de mp3 player com fones de ouvido brancos, você está perdido. Eu me visto de uma forma bem comum, ou seja, passo batido em qualquer ambiente. Jeans, botina e malha de lã. Um foda-se pra tudo.
O "bar comunista" estava cheio demais, então resolvemos seguir adiante. Sugeri um bar dos anos 60 chamado "Yesterday", era apenas duas quadras acima. Meu amigo sugeriu que bebêssemos uma cerveja no caminho, eu nem preciso concordar com esse tipo de sugestão. Entramos num quicky-mart atrás de uma tal cerveja russa. Achamos. Uma delícia. 8% de álcool, uma bomba praticamente. Andamos até o bar dos anos 60 mas desistimos de entrar. Sentamos numa praça e ficamos bebendo e falando sobre mulheres. Parecíamos dois russos desempregados pós-queda do muro de Berlin, daqueles que ficam o dia inteito bebendo cerveja barata nas esquinas, falando sobre o nada, aqueles que dormem ouvindo Wind of Change do Scorpions todo dia, saudosistas. Típico mendigo proletário. Discutimos sobre a lei brasileira que proíbe a mendicância e a vadiagem, aí o papo já partiu pras filosofias, a noite estava apenas começando.
Como estávamos falando de bandas russas dos anos 80 que emulavam Scorpions e Bon Jovi, sugeri irmos até um bar russo chamado Gorky Park. Cerveja russa, ora bolas. Fomos. Não havia espaço dentro do bar, ou seja, sentamos em uma mesa do lado de fora, 8°C, em nossa companhia algumas russas mid-30s que riam tão alto a ponto de dar aquela famosa inveja revestida sob forma de incômodo. Partimos pra canecas de meio litro, cerveja "Moskwa". Falávamos mal do mundo e nos divertíamos com a superficialidade de tudo e de todos, discutíamos sobre o conceito de arte, sobre a inutilidade da pintura abstrata e, claro, sobre mulheres. Uma loira estonteante passa do nosso lado, uma deusa germânica, cerca de 1,80m de puro pecado, rosto inequívoco. Solto logo um alto "nossa, muito gata essa alemoa". Aqui eu sou livre pra falar o que eu quiser, ninguém me entende mesmo. Ela entra no bar e passa de mesa em mesa falando algo. Sai, vai até a mesa das russas, fala algo e vai embora. Sem passar pela nossa mesa. Falei pro meu amigo: "cara, a gente deve tar com cara de russo perdedor mesmo, a gostosa nem veio falar com a gente". Meu amigo se levanta e fala: "vou tirar isso a limpo". E eu fico os próximos 15 minutos sentado sozinho na mesa tomando a minha cerveja russa e olhando meu amigo conversar com a teúda-manteúda. Ele volta todo feliz: "ela fala português!". Retruco: "ora, mas então ela entendeu quando ela tava do meu lado e eu falei que ela era muito gostosa". Pronto, sabíamos porque ela não tinha vindo falar com a gente. Depois meu amigo contou que no fim das contas nem era isso, ela não veio falar com a gente porque ouviu nossa conversa e pensou que nós não nos interessaríamos pela assinatura de jornal que ela estava vendendo. "Mas como assim, uma deusa dessas, linda, que fala 4 idiomas, vendendo assinatura de jornal na rua às 23 da noite?". Pois é, é a situação atual da Europa, tem muita gente ralando pra sobreviver.
Enquanto falávamos sobre a menina, fomos abordados por um português-brasileiro que queria fazer amizade. Batemos um papo e ele disse que não falava nada de alemão e queria conhecer gente nova e cair na putaria. Dei a ele algumas dicas e nos despedimos.
Meu amigo estava tão eufórico por ter conhecido a gostosa (e eu com uma certa inveja, claro) que disse que queria tomar mais uma cerveja. Fomos a outro bar, havia música ao vivo. Uma garçonete do bar é vizinha desse meu amigo, uma russa de cabelo bem preto, traços bem marcantes, seios firmes e volumosos, quadris brasileiros e um sorriso que faz levantar defunto. Ficamos conversando um pouco, eu jogava de quando em quando um gracejo em seus ouvidos, claro, sem fazer qualquer tipo de elogio ou demonstrar demasiado interesse. E vi que meio que sem querer eu consegui apertar o botão "on" dela. Aí ela já veio perguntando onde eu morava e se eu sabia tocar violão, eu disse que sim, e que cantava também, e decidi tirar o time de campo, o jogo tava fácil demais, mel na chupeta.
Cerveja vai, cerveja vem, desce macia, e eu vi que havia outra menina atrás do balcão. Loira, pele bem branquinha, sem maquiagem, pele esteticamente macia, uma luva, cabelos presos às pressas, lindos, convidativos, uma discreta blusinha preta com mangas compridas, seios trancados a sete chaves, uma longa saia duma cor clara que não sei descrever agora, mais clara que bege. Era um anjo. Maria havia crescido, deixou João na floresta comendo doces e veio morar na cidade grande. Eu nem queria mais beber, mas a possibilidade de receber uma cerveja das mãos dela e levar meus olhos até os seus foram a passagem de ida que comprei rumo à embriaguez consciente. E acho que ela gostou de mim. Mas não havia nenhuma brecha pra eu falar com ela, Maria estava atarefada, o anjo noturno que enchia copos com cerveja de trigo, nem o som da banda ao vivo eu conseguia escutar, a russa dos cabelos cor de petróleo dançava como se ninguém estivesse vendo, eu certamente não estava. Apanhei um flyer de papel sulfite, pedi uma caneta pro meu amigo, caneta tinteiro, estou bêbado, provavelmente vou quebrar essa ponta, foda-se. Escrevi um bilhete. Amassei, descartei. Outro. Outro. Pronto, agora esse é o último pedaço de papel, eu tenho que ser original, tenho cerca de 6 linhas, minha única chance de fazer essa menina se interessar por mim, ligar pra tomarmos um café, por ela eu até perdôo o telefonema que me assusta. Escrevi. Dobrei o bilhete. Entreguei nas mãos dela, aquele olhar entreguista, aquele bêbado com cara de russo desempregado lhe confessando tudo pelos olhos, eu me sentia nu na frente dela, eu havia perdido a batalha, nem era preciso entregar o bilhete. Eu deveria ter entregado um bilhete em branco, bem dobrado. Afinal ela nem precisaria abrir pra saber o que eu queria, meus olhos não conseguem mentir quando eles mais precisam, será que precisam?
Saí de lá, subi umas escadas do lado do bar pra ir até o banheiro, nas escadas encontro o português de uns bares atrás, o cara que estava sozinho havia algumas horas atrás, procurando amizades, agora estava com um grupo de 10 pessoas, todos animados, mulheres bonitas. "Conheci esse povo na rua, tamos indo pra balada, quer ir junto?". "Pra quê, acabei de perder uma batalha", pensei em dizer. Eu moro nessa cidade há 2 anos e constato que em uma noite o português fez mais amizades que eu nesses dois anos, há algo de errado comigo, merda de bilhete, merda de olhos, merda de cerveja. Enfim, a noite acabou. Uma quinta-feira qualquer. Troquei telefones com o português, preciso aprender certas coisas com esse cara. Despedi-me, meu amigo ainda estava no bar, eu vou pra casa.
O frio agora batia com mãos abertas em minha cara, estou com fome, quero ir pra casa, quero voltar lá e enfiar minha língua na boca da russa gostosa, Maria venceu a batalha, mas ainda estou vivo, ainda estou bêbado, são 3 horas da madrugada, vou pra casa dormir, há muito o que aprender nessa vida, de que adianta saber filosofar quando não se sabe viver, viver é agir, viver não é pensar, e já estou a falar merda de novo.
Que venha a sexta-feira com todas as suas expectativas.
2 comentários:
post diarinho, mas diarinho kerouac
Também adoro seu blog, aliás.
O que tinha escrito no bilhete?
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