6.10.06

Em busca do cálice sagrado

Muita gente se questiona sobre o sentido da vida. Isso depois de uma certa idade, claro. No primeiro ano de vida o sentido da vida é mamar. Dos dois aos três é aprender a andar, falar, cagar e escovar os dentes sozinho. Aos cinco é aprender a andar de bicicleta, aos seis é jogar os dentes-de-leite no telhado pro rato vir buscar (?).

Pausa. Eu não me lembro se eu destinava meus dentes-de-leite extraídos aos ratos do telhado ou se os deixava debaixo do travesseiro pra fada dos dentes buscar. Enfim.

Aos sete é aprender a escrever corretamente. Dali até os 12 o sentido da vida é não ser escolhido por último no time de futebol da classe. Depois vêm as mulheres, aí fodeu. O sentido da vida aos 13 é beijar no bailinho da escola. Aos 14 é beijar e ser elogiado, sem morder ou babar. Aos 15 é ser eleito o melhor beijador da turma. Mais ou menos por aí o sentido da vida é conseguir ejacular. Depois é ver os pêlos crescerem pelo corpo. E conseguir falar sem gaitear.

Aos 16 o sentido da vida é comer aquela gostosa da sua classe. E beber mais que todos os seus amigos. Aos 17 o sentido da vida é fazer um "x" no lugar correto do manual da Fuvest. E passar na Fuvest.

Aos 18 o sentido da vida é ganhar um carro, beber mais que todos os seus amigos da faculdade e comer as gostosas mais velhas. Dos 18 aos 23 o sentido da vida é passar de ano e permanecer vivo e sem problemas com drogas, bebendo e transando todos os finais de semana. Desculpe os clichês, falo de minha realidade burguesa e dela não me envergonho.

Aos 23 o sentido da vida é conseguir se formar. Aos 24 é conseguir um emprego, sair de casa e começar a tocar sua vida sozinho, finalmente. Ganhar seu próprio dinheiro e ser feliz, basicamente.

Aí as coisas começam a complicar. Porque você já fez basicamente tudo que a sociedade ou seus pais esperavam de você. Você passou todas as fases do Super Mario, matou o Koopa, comeu a Princesa e agora está sentado numa sarjeta qualquer, sem saber se deve pegar o ônibus que sobe ou o que desce a rua.

A sua liberdade começa e te incomodar, você fica de saco cheio daquela rotina acordar-trabalhar-almoçar-trabalhar-voltar pra casa-ver TV-dormir. Você perdeu o sentido da sua vida.

Começam nessa fase da vida a aparecer alguns nós psicológicos em sua cabeça. Problemas mesmo. Algumas vítimas se escondem no trabalho, outras se escondem no namoro, alguns se escondem na bebida e fogem de si mesmos. Não têm coragem de encarar a vida de frente. E agora?

Alguns buscam refúgio no consumismo, dando razão à sua existência com iPods, máquinas fotográficas, carros, roupas de marca e mesinhas de centro do atual catálogo da Ikea (uma espécie de Tok-Stok mundial). E alguns se maravilham com filmes como Clube da Luta ou Beleza Americana, mas pouco fazem pra mudar suas ordinárias vidas.

As mulheres dessa idade possuem ainda mais um problema. A natureza chama, é hora de casar e ter filhos, infernizar a vida do namorado ou se tornar uma mal-amada e infernizar o mundo em geral. Pobres mulheres. Nada se pode fazer contra esse chamado, talvez seja a última oportunidade.

E as pessoas em geral buscam hobbys pra amenizar esse desespero da alma. Uns colecionam revistas de histórias em quadrinhos, outros fazem Yôga sob o pretexto de conhecer gente legal e atrair estranhos em suas miseráveis vidas, outros lêem.

Eu não tenho medo dessa liberdade dos 20-e-poucos. Eu sorrio pra ela. Como? Sorrindo, simples. Já passei pelo inferno. E sobrevivi. Não preciso achar um sentido pra minha existência. A vida é um fato, uma realidade. Qual é o sentido do sol? Pergunta besta, né? Você existe e ponto, e o sol também. E o sol faz o que tem que fazer e você deveria fazer o mesmo. Todo mundo tem sua função nesse planeta, mas existência nenhuma tem um sentido. Basta folhear as primeiras páginas dA Política de Aristóletes.

É justo você ainda não saber qual a sua função no mundo. Até porque provavelmente ela não terá muita importância pra ele. A sua função importa muito mais àqueles que partilham de sua vida, a sua família, os seus amigos. E a você, em primeiro lugar. Há pessoas que simplesmente não possuem função nenhuma no mundo em determinadas épocas de sua existência, e eu acho que sou uma delas. E não vejo problema nisso, sei que isso muda com o tempo, há várias fases da vida. Eu sou contra todo tipo de regra pré-existente quando o assunto é de ordem sociológica. Sou contra o trabalho obrigatório na sociedade, sou contra essa merda de troca de mão-de-obra por salário e tudo mais, mas isso é outro assunto que prometo retomar em breve.

Em suma, faça como os sábios chineses e hindus que vivem em paz há milhares de anos: páre de arrumar sarna pra se coçar, sua vida é uma realidade e qualquer tentativa de a ela dar algum sentido vai apenas fundir sua cabeça de símio recém-evoluído. Se tiveres muitas dúvidas acerca da vida, leia a Bíblia, leia os clássicos mas continue em velocidade cruzeiro. É muito triste ver um bando de gente da minha idade completamente perdida e sem rumo. A vida é um imperativo e passa correndo. O que se leva da vida? Nada. O que se deixa no mundo? Lembranças. Com quem ficam as lembranças? Com as pessoas. Porque você é um ser social e afetivo, não se esqueça. Sei lá, talvez até haja um sentido na vida: vivê-la com aqueles que amamos.

Tá com muita dúvida? Faça o que te faz sorrir.

3 comentários:

Unknown disse...

Amo este texto... O que aconteceu com o "How to fall in love..."?
Vc vai continuar com a saga?

Anônimo disse...

o que me faz sorrir não dá dinheiro, pinóia.

Anônimo disse...

opa, fui eu acima