*** O lugar da festa de hoje é o mesmo mencionado no post abaixo, que publico novamente atendendo a pedidos. ***
O cara chega à festa. Bem arrumado, gel no cabelo, perfumado, "well I don't know why I came here tonight, I got a feeling that something ain't right". O cara cumprimenta umas pessoas que ele conhece e cujo convívio social ele tolera. Passa por entre as mesas, vai até o balcão. Senta num banco de veludo cor de vinho, olha pros lados, bate a mão no bolso direito, alcança a carteira de cigarros, tira o lacre, embrulha bem e joga no segundo cinzeiro mais próximo, se jogar no primeiro aquilo vai pegar fogo e soltar um cheiro horrível. Acende o cigarro, tenta esconder uma leve tremedeira. Pede uma cerveja, toma-a em goles largos, quer se embriagar, não é fácil estar no meio de tanta gente.
Chegam uns conhecidos do cara. Uma conversa bacana começa a rolar, falam sobre passagens bíblicas, o sentido da vida, house music dos anos 90 e sobre redutos de prostituição. O cara toma umas 3 ou 4 cervejas, já fica mais relaxado. Até se esquece da sua falta de auto-estima, o cara se desinteressa pela conversa e passa a olhar por cima das cabeças alheias, ele ainda não sabe quem procura, pelo menos não conscientemente. O cara fala aos outros que vai tentar socializar um pouco, nunca é tarde pra começar. Ele se dirige até a beirada da pista de dança, copo de cerveja na mão, e não sabe por onde começar. E as passagens bíblicas voltam à mente: ame o próximo como a ti mesmo. Ok, em teoria é fácil, já temos um objetivo. Mas qual será o caminho? Como fazer isso? O que significa me amar? Como falar com essas pessoas estranhas?
Aí o cara percebe que aquilo ali não vai dar em nada, ele pensa em desistir, terminar aquele copo de cerveja e ir embora, ele definitivamente não nasceu pra compartilhar daquele tipo de felicidade coletiva, ele procura respostas pra entender o porquê, mas sem parecer fraco, e aceitar a derrota, então ele covardemente acha um atalho e culpa a natureza, a sua natureza, pensa que é selvagem demais, um bicho do mato que foge assustado da luz, ele não tem coragem pra assumir seus defeitos, é difícil demais mudar.
Eis que ele olha pra frente e a vê. A revê, na verdade, porque com ela já tinha sonhado. Ela caminha vagarosamente em sua direção, olhos nos olhos, a música vai diminuindo de volume lentamente como em qualquer cena clichê de comédia romântica, as luzes ao redor se apagam, o mundo se reduz àqueles dois.
Ela pergunta o nome do cara, diz que não consegue guardar nomes, mas que se lembrava dele, e ele diz que também é ruim com nomes, mas que milagrosamente conseguia lembrar o dela. Ele está visivelmente nervoso, tenta não deixar aquilo florescer, então ele engata uma conversa qualquer, como por exemplo sobre a beleza semântica do verbo "florescer", e ela gosta da conversa, ou pelos menos finge gostar, o ser humano faz tudo pelo amor. Os dois esquecem a festa, vão até uma mesa, conversam como se fossem amigos há anos, eles se abraçam diversas vezes, sorriem bastante, a conexão entre suas almas funciona em banda larga de alta velocidade, ambos contam suas vidas, dividem suas visões de mundo, segredos, o cara vai ficando mais à vontade, está tão feliz que nem consegue mais prestar atenção ao que a menina fala, ele concorda com tudo, apenas olha para aqueles olhos verdes e sorri, torce para que ela não pergunte nada, ficaria chato responder concordando.
Aí ela pergunta se ele gosta de dançar, e ele sorri e diz que é tímido e que gosta sim, e eles vão pra pista e dançam com uma cumplicidade capaz de despertar inveja em irmãos gêmeos idênticos, e eles se abraçam novamente, algumas meninas de fora tentam entrar no meio e acabar com aquela alegria, eles sorriem um pro outro debochando de tudo aquilo, vão tomar mais um cerveja. E ela o convida para uma visita, ela mora em outra cidade, diz que vai visitá-lo também, e enquanto ela vai pegar mais uma cerveja ele vai ao banheiro, e quando ele volta eles se perdem de vista.
Ele a vê conversando com outras pessoas e resolve ficar na dele, não quer incomodar, ficar em cima dela, isso enche o saco, ele espera ela voltar. E ela, no outro canto da festa, olha pra ele como se esperasse que ele viesse até ela, mas ele está lá no outro canto, tomando uma cerveja sozinho, aquele cara é muito cool, ela fica intimidada, talvez ele queira ficar sozinho um pouco, e assim a impureza dos corações humanos espreme suas gotas amargas de limão e começa a manchar aquela bela história.
O cara fica meio impaciente, quer estar do lado dela novamente, então ele vai comendo pelas beiradas, entra no meio da pista de dança, tenta parecer ainda mais cool, e aquelas mesmas meninas que queriam estragar tudo vão pra perto dele, e a menina dos olhos verdes observa tudo aquilo pensando se ele não seria apenas um cafajeste de ocasião, e ele dança com os olhos fechados esperando um milagre, que ela venha até ele e o convide pra mais uma cerveja, pra mais um sorriso, mais um abraço carinhoso. E o tempo passa e o cara resolve dar uma volta.
Eles ficam um tempo sem se ver, cada um se escondendo à sua maneira, ninguém quer dar o braço a torcer, e o coração vai ficando cada vez mais apertado. E o DJ coloca uma música da Madonna nas pick-ups, e o cara vai de novo pra pista e encontra a menina dançando sozinha, e eles se entreolham e sabem que não há nada mais pra se fazer a não ser beijar e ser feliz, o objetivo está definido, ame essa menina da mesma forma como você se ama, mas puta que pariu, o cara não sabe como fazer isso.
O cara vira pra menina, olha pro relógio e diz que odeia despedidas, que na verdade ele não liga pra despedidas, mas que vai ser difícil se despedir dela, ela diz que estava pensando exatamente o mesmo, então os dois resolvem trocar seus contatos ainda no meio da festa pra evitar toda aquela dor no final, eles decidem simplesmente não se despedir.
E a menina vai até o bar e pede um papel e uma caneta, escreve seu telefone e seu e-mail e entrega pra ele com brilho nos olhos, entrega-lhe também um papel pra que ele escreva seu telefone, ele diz que aquele papel é pequeno demais, toma a caneta e vai pro banheiro, apanha um pedaço de papel de enxugar as mãos, apanha logo dois, senta numa mesa e escreve.
Ele escreve que em certas ocasiões os poetas têm dificuldades em demonstrar seus sentimentos, principalmente quando se encontram sob pressão, e que a pressão de uma despedida é um fardo que ele não consegue carregar. Ele tece elogios à menina, assume estar perdidamente apaixonado, escreve seu telefone, e-mail, pede que ela se cuide e que escreva mandando notícias, e ainda faz um desenho qualquer pra quebrar o gelo. O cara então dobra esse papel. Desdobra-o. Escreve no título: "isso não é uma declaração de amor". Dobra de novo. Desdobra. Escreve embaixo do título: "ok, talvez seja sim". Aí ele fica com medo daquele frágil papel reciclado de banheiro rasgar com o peso de suas palavras, dobra-o meticulosamente.
Ele caminha até a pista, encontra a menina, pega sua mão, leva-a até um canto, deposita o pequeno embrulho em sua outra mão, olha nos seus olhos e diz: "está tudo aqui dentro". Então ele passa sua mão sobre os cabelos da menina, dá-lhe um beijo na testa, olha novamente pros lindos olhos verdes, vira as costas e vai embora.
Ele caminha lentamente pelas frias ruas, esperando um toque no seu celular, mas o telefone permanece mudo. Ele diminui o passo pensando que a menina pode a qualquer momento sair correndo da festa e vir ao seu encontro. Mas isso não ocorre. Chega a hora de dobrar a esquina, a esquina que definitivamente colocará um ponto final naquela noite. E ele chega em casa perdido, se sente só, não sabe o que fazer, se deve ligar o som, tomar um banho, ver TV ou simplesmente chorar. Ou esperar ansiosamente pelo próximo capítulo dessa história.
O cara chega à festa. Bem arrumado, gel no cabelo, perfumado, "well I don't know why I came here tonight, I got a feeling that something ain't right". O cara cumprimenta umas pessoas que ele conhece e cujo convívio social ele tolera. Passa por entre as mesas, vai até o balcão. Senta num banco de veludo cor de vinho, olha pros lados, bate a mão no bolso direito, alcança a carteira de cigarros, tira o lacre, embrulha bem e joga no segundo cinzeiro mais próximo, se jogar no primeiro aquilo vai pegar fogo e soltar um cheiro horrível. Acende o cigarro, tenta esconder uma leve tremedeira. Pede uma cerveja, toma-a em goles largos, quer se embriagar, não é fácil estar no meio de tanta gente.
Chegam uns conhecidos do cara. Uma conversa bacana começa a rolar, falam sobre passagens bíblicas, o sentido da vida, house music dos anos 90 e sobre redutos de prostituição. O cara toma umas 3 ou 4 cervejas, já fica mais relaxado. Até se esquece da sua falta de auto-estima, o cara se desinteressa pela conversa e passa a olhar por cima das cabeças alheias, ele ainda não sabe quem procura, pelo menos não conscientemente. O cara fala aos outros que vai tentar socializar um pouco, nunca é tarde pra começar. Ele se dirige até a beirada da pista de dança, copo de cerveja na mão, e não sabe por onde começar. E as passagens bíblicas voltam à mente: ame o próximo como a ti mesmo. Ok, em teoria é fácil, já temos um objetivo. Mas qual será o caminho? Como fazer isso? O que significa me amar? Como falar com essas pessoas estranhas?
Aí o cara percebe que aquilo ali não vai dar em nada, ele pensa em desistir, terminar aquele copo de cerveja e ir embora, ele definitivamente não nasceu pra compartilhar daquele tipo de felicidade coletiva, ele procura respostas pra entender o porquê, mas sem parecer fraco, e aceitar a derrota, então ele covardemente acha um atalho e culpa a natureza, a sua natureza, pensa que é selvagem demais, um bicho do mato que foge assustado da luz, ele não tem coragem pra assumir seus defeitos, é difícil demais mudar.
Eis que ele olha pra frente e a vê. A revê, na verdade, porque com ela já tinha sonhado. Ela caminha vagarosamente em sua direção, olhos nos olhos, a música vai diminuindo de volume lentamente como em qualquer cena clichê de comédia romântica, as luzes ao redor se apagam, o mundo se reduz àqueles dois.
Ela pergunta o nome do cara, diz que não consegue guardar nomes, mas que se lembrava dele, e ele diz que também é ruim com nomes, mas que milagrosamente conseguia lembrar o dela. Ele está visivelmente nervoso, tenta não deixar aquilo florescer, então ele engata uma conversa qualquer, como por exemplo sobre a beleza semântica do verbo "florescer", e ela gosta da conversa, ou pelos menos finge gostar, o ser humano faz tudo pelo amor. Os dois esquecem a festa, vão até uma mesa, conversam como se fossem amigos há anos, eles se abraçam diversas vezes, sorriem bastante, a conexão entre suas almas funciona em banda larga de alta velocidade, ambos contam suas vidas, dividem suas visões de mundo, segredos, o cara vai ficando mais à vontade, está tão feliz que nem consegue mais prestar atenção ao que a menina fala, ele concorda com tudo, apenas olha para aqueles olhos verdes e sorri, torce para que ela não pergunte nada, ficaria chato responder concordando.
Aí ela pergunta se ele gosta de dançar, e ele sorri e diz que é tímido e que gosta sim, e eles vão pra pista e dançam com uma cumplicidade capaz de despertar inveja em irmãos gêmeos idênticos, e eles se abraçam novamente, algumas meninas de fora tentam entrar no meio e acabar com aquela alegria, eles sorriem um pro outro debochando de tudo aquilo, vão tomar mais um cerveja. E ela o convida para uma visita, ela mora em outra cidade, diz que vai visitá-lo também, e enquanto ela vai pegar mais uma cerveja ele vai ao banheiro, e quando ele volta eles se perdem de vista.
Ele a vê conversando com outras pessoas e resolve ficar na dele, não quer incomodar, ficar em cima dela, isso enche o saco, ele espera ela voltar. E ela, no outro canto da festa, olha pra ele como se esperasse que ele viesse até ela, mas ele está lá no outro canto, tomando uma cerveja sozinho, aquele cara é muito cool, ela fica intimidada, talvez ele queira ficar sozinho um pouco, e assim a impureza dos corações humanos espreme suas gotas amargas de limão e começa a manchar aquela bela história.
O cara fica meio impaciente, quer estar do lado dela novamente, então ele vai comendo pelas beiradas, entra no meio da pista de dança, tenta parecer ainda mais cool, e aquelas mesmas meninas que queriam estragar tudo vão pra perto dele, e a menina dos olhos verdes observa tudo aquilo pensando se ele não seria apenas um cafajeste de ocasião, e ele dança com os olhos fechados esperando um milagre, que ela venha até ele e o convide pra mais uma cerveja, pra mais um sorriso, mais um abraço carinhoso. E o tempo passa e o cara resolve dar uma volta.
Eles ficam um tempo sem se ver, cada um se escondendo à sua maneira, ninguém quer dar o braço a torcer, e o coração vai ficando cada vez mais apertado. E o DJ coloca uma música da Madonna nas pick-ups, e o cara vai de novo pra pista e encontra a menina dançando sozinha, e eles se entreolham e sabem que não há nada mais pra se fazer a não ser beijar e ser feliz, o objetivo está definido, ame essa menina da mesma forma como você se ama, mas puta que pariu, o cara não sabe como fazer isso.
O cara vira pra menina, olha pro relógio e diz que odeia despedidas, que na verdade ele não liga pra despedidas, mas que vai ser difícil se despedir dela, ela diz que estava pensando exatamente o mesmo, então os dois resolvem trocar seus contatos ainda no meio da festa pra evitar toda aquela dor no final, eles decidem simplesmente não se despedir.
E a menina vai até o bar e pede um papel e uma caneta, escreve seu telefone e seu e-mail e entrega pra ele com brilho nos olhos, entrega-lhe também um papel pra que ele escreva seu telefone, ele diz que aquele papel é pequeno demais, toma a caneta e vai pro banheiro, apanha um pedaço de papel de enxugar as mãos, apanha logo dois, senta numa mesa e escreve.
Ele escreve que em certas ocasiões os poetas têm dificuldades em demonstrar seus sentimentos, principalmente quando se encontram sob pressão, e que a pressão de uma despedida é um fardo que ele não consegue carregar. Ele tece elogios à menina, assume estar perdidamente apaixonado, escreve seu telefone, e-mail, pede que ela se cuide e que escreva mandando notícias, e ainda faz um desenho qualquer pra quebrar o gelo. O cara então dobra esse papel. Desdobra-o. Escreve no título: "isso não é uma declaração de amor". Dobra de novo. Desdobra. Escreve embaixo do título: "ok, talvez seja sim". Aí ele fica com medo daquele frágil papel reciclado de banheiro rasgar com o peso de suas palavras, dobra-o meticulosamente.
Ele caminha até a pista, encontra a menina, pega sua mão, leva-a até um canto, deposita o pequeno embrulho em sua outra mão, olha nos seus olhos e diz: "está tudo aqui dentro". Então ele passa sua mão sobre os cabelos da menina, dá-lhe um beijo na testa, olha novamente pros lindos olhos verdes, vira as costas e vai embora.
Ele caminha lentamente pelas frias ruas, esperando um toque no seu celular, mas o telefone permanece mudo. Ele diminui o passo pensando que a menina pode a qualquer momento sair correndo da festa e vir ao seu encontro. Mas isso não ocorre. Chega a hora de dobrar a esquina, a esquina que definitivamente colocará um ponto final naquela noite. E ele chega em casa perdido, se sente só, não sabe o que fazer, se deve ligar o som, tomar um banho, ver TV ou simplesmente chorar. Ou esperar ansiosamente pelo próximo capítulo dessa história.
Update: menti pra vocês, essa história é verídica e aconteceu comigo. O que rolou depois? Trocamos uns 2 e-mails, and it's all over now, baby blue.
5 comentários:
a sinceridade intimida.
Incomodou na primeira vez que li... coração ficou apertadinho...
Comece a ler pela segunda vez... angustia de novo (será que me reconheci ali?)...
Aí vieram em negrito as declarações finais...
......ta doendo aqui.
É... os seres humanos são esquisitos...
Tava aqui, suportando o horário eleitoral gratuito e de repente, resolvi olhar o teu blog, li essa estória e engraçado... Já vivi algo parecido...É, ser humano é esquisito e muitas vezes não sabe o que quer ou é apenas medo, não sei...
Mas sabe...Quando a gente manda tudo pro inferno(e o amor inclusive), ele resolve atravessar o teu caminho... Vai entender..?
bela história. e a parte II?
Não há.
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